A USP com ares de Ditadura, por Guilherme Guimarães
A prisão agora de mais de 70 estudantes já vai além de ares de Ditadura, é uma afronta à luta dos movimentos sociais por seus direitos e pautas historicamente acumuladas.
Há alguns dias estamos acompanhando a ocupação da Reitoria da USP. Os/as estudantes decidiram realizar este ato após uma anterior ocupação do prédio de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. As duas ações têm como resposta a prisão de três estudantes no campus que estavam fumando maconha. É curioso ver que os caciques tucanos não se entendem, não é FHC - Fernando Henrique Cardoso defende Legalização da Maconha no Fantástico [29.05.2011] - ? A prisão ocorreu porque há um tempo a Reitoria da USP fez um convênio com a Polícia Militar, pactuando a entrada desta no campus para melhor “fiscalizar”.
Para a ocupação, além da campanha “Fora PM do campus”, houve a incorporação de outras pautas, pouco divulgadas. Contudo, há fatos por trás dessa quebra de braço que é preciso ressaltar.
Primeiro, que @s estudantes estão negociando com uma Reitoria que não foi eleita pela comunidade universitária, e sim nomeada pelo então Governador José Serra, fato comum dos Ditadores de 64, como se vê na matéria da Folha à época: http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u651773.shtml. Foi a primeira vez depois de terminada a Ditadura, que a candidatura mais votada não foi empossada. Durante toda a cobertura midiática se questionou a legitimidade d@s estudantes, e em nenhum momento se perguntou: essa Reitoria é legítima? Ponto pros ares, da Ditadura com o Reitor biônico.
Segundo, é preciso realmente ter muita calma no debate sobre a Polícia Militar no campus universitário. Certa vez uma Reitora ao ser indagada sobre este tema, respondeu que ela havia lutado tanto pra tirar a PM do campus, que não seria ela a responsável por trazê-la. A pressão por tê-la é a sanha por segurança pública extremada, com leques de punição e prisão a todos os casos. O “douto” reitor, do departamento de direito, bem conhece a relação PM e a idéia do Direito Penal máximo. Na prática de sua história, mostra conhecer e realmente apoiar. Os delitos de maior infração no campus, como assalto à mão armada e até mesmo homicídios são preocupantes, e devem ser encontradas formas de se coibi-los. No entanto cercar a USP de PM’s é tapear os reais problemas, e de forma simbólica resgatar os ares de Ditadura e de conhecimentos cerceado nas Universidades.
Por fim, a cobertura midiática. É escandaloso, pra não dizer trágico, ver e ler a cobertura da grande imprensa do atual caso. Se não fossem as mesmas que surgiram e/ou se mantiveram por relações umbilicais com os Generais, seria surpreso também. No entanto, a sanha por prisões e a linha de argumentação rica em adjetivos pejorativos como “baderneiros, vagabundos, filhinhos de papai”, entre outros, é interessante e remota aos mesmos argumentos que eram utilizados pela Ditadura. Faltou dizer, no fim da ocupação, que lá havia um cativeiro onde criancinhas eram friamente comidas.
Nos três casos, há uma criminalização e afronta aos direitos sociais: o ataque à democracia, a repressão aos movimentos sociais e a parcialidade imprecisa. É uma contradição imensa da “melhor universidade da América Latina”. Uma Universidade que se diz ponta em pesquisa, mas ainda não conseguiu solucionar seus problemas de forma eficaz, democrática e em passo com as demandas sociais.
É dever assim do movimento estudantil se somar e se solidarizar com o movimento estudantil da USP. Eduardo da Costa, diz no seu poema “Caminhando com Maiakóvski” que
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
Os CA’s e DA’s, DCE’s, Executivas de Curso e UEE’s devem se prontificar a repelir esta atitude e engrossar a campanha pela não criminalização do movimento estudantil. À UNE, cabe o papel de colocar toda sua estrutura à disposição dos/das lutador@s da USP, ir pras ruas e intervir diretamente no que tange às pautas e defesa dess@s estudantes perante à justiça comum, à universidade e à reitoria.
A USP está com ares e prática de Ditadores. Não nos calamos em 64, e não será agora que o faremos.
Todo apoio ao movimento estudantil da USP! Estamos tod@s aí, com nossa força, nossa voz!
Guilherme Guimarães é diretor de Políticas Educacionais da UNE
http://www.pt.org.br/index.php?%2Fnoticias%2Fview%2Fartigo_a_usp_com_ares_de_ditadura_por_guilherme_guimaraees

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